Histórias

TYLER THE CREATOR - FÚRIA COLETIVA

14 September 2011
TYLER THE CREATOR - FÚRIA COLETIVA

Ameaças a Bruno Mars, piadas agressivas, e por aí vai. Tyler, The Creator e o coletivo OFWGKTA chegam para trazer um pouco de controvérsia ao cenário musical.

O QUARTO ÁLBUM de Eminem, “The Eminem Show”, foi lançado em 2002, e sua música mais famosa, ‘Without Me’, dizia: “nós precisamos de um pouco de controvérsia”. Durante essa época pareciam estar querendo separar o hip-hop da confusão. O aclamado “Slim Shady” pouco fez para mudar as coisas, e aos poucos o rap gringo foi ficando cada vez mais boa praça. Mas a chegada do coletivo de enfant terribles californiano Odd Future Wolf Gang Kill Them All finalmente mudou as coisas.

Liderado por Tyler, The Creator, o Odd Future é formado por garotos cuja idade vai dos 17 aos 25 anos. Eles produzem seus próprios discos, dirigem seus próprios clipes e gostam de insultar celebridades, homossexuais e praticamente tudo que se move. Assim, chegaram ao estrelato e conseguiram uma atenção quase inédita da mídia em relação ao rap independente.

Tudo começou no dia de Natal de 2009, quando Tyler, então com 18 anos, lançou seu primeiro disco, “Bastard”. A bolacha, distribuída gratuitamente no tumblr do grupo, chegou a ser considerada um dos melhores discos do ano seguinte pelo site Pitchfork. Daí, o OFWGKTA deslanchou. Durante 2010, Earl Sweatshirt, Hodgy Beats, Domo Genesis, Casey Veggies, Mike G e LeftBrain lançaram álbuns mezzo solo mezzo colaborativos dentro da coletividade do grupo. Parecia questão de tempo para que se tornassem “a próxima grande coisa” do hip-hop americano.

E de fato foi. Bastou 2011 chegar para que Tyler desse sua cartada mais certeira: o vídeo de ‘Yonkers’, primeiro single de seu segundo álbum solo. O clipe, que mostra Tyler comendo uma barata gigantesca, depois vomitando, depois cego e por último se enforcando, passou de alguns milhões de views no YouTube (hoje já passa dos 13 milhões) e fez do menino de 20 anos gente grande na música. A polêmica foi além do vídeo indigesto, dirigido por ele próprio sob a alcunha de Wolf Haley (ele também aparece como Ace Creator de vez em quando). Na letra de ‘Yonkers’, Tyler manda Jesus parar de choramingar, diz que gostaria de ver o avião do rapper B.O.B caindo e que vai esfaquear Bruno Mars no esôfago sem parar até a polícia chegar. Suas letras incomodaram não apenas os atingidos por elas, mas até mesmo gente inusitada, como a dupla indie Tegan and Sara, que reprovou seu conteúdo homofóbico.

Contudo, ele nega que odeie gays. “Só uso o termo faggot [equivalente a viado] porque ofende as pessoas”, já disse. A presença da produtora e engenheira de som lésbica Syd Bennett no OFWGKTA também coloca em dúvida a suposta homofobia atribuída aos rappers. Parece mesmo o caso de um garoto a fim de provocar, abrir buracos no senso comum e chamar a atenção. Tem dado certo. A base de fãs fiéis do Odd Future não para de crescer, dia após dia, e o grupo já tocou no Coachella, no programa de Jimmy Fallon e tem agendadas outras aparições importantes em festivais.

Falando coisas tão pesadas (e, acima de tudo, desmioladas), Tyler acabou expondo um lado da sociedade americana que talvez explique seu sucesso. Seus rompantes violentos se relacionam perfeitamente com a nação que comemorou a morte de Bin Laden como a taça da Copa do Mundo. Mais; trata-se de um país onde tudo se pode pensar e quase nada se pode fazer, e até onde se sabe, os membros do Odd Future têm uma ficha criminal limpíssima.

Em maio, “Goblin”, o segundo LP de Tyler, chegou cercado de expectativa (e um contrato com a XL Recordings. Aqui no Brasil o disco sai pela Lab 344). Seu som é semelhante ao de “Bastard”, cheio de beats minimalistas e rimas pouco convencionais, e em uma semana vendeu 50 mil cópias. Uma audição atenta do disco faz o ouvinte concluir que, de fato, independente de toda a controvérsia, Tyler é um rapper e produtor de talento. E, primariamente, é isso que sustenta o hype em cima de qualquer artista.

No meio desse turbilhão de fatos novos, um grande mistério ainda ronda o coletivo. Assim que o OFWGTA apareceu pela primeira vez, um de seus membros mais importantes, Earl Sweatshirt (pseudônimo de Thebe Kgositsile), sumiu. Apontado por muita gente como o melhor rimador do grupo, ele teria sido “escondido” pela própria mãe em uma clínica para jovens problemáticos na Samoa Americana. Vale lembrar que Earl ainda não completou a maioridade (incrivelmente, aliás, ele acabou de completar 17 anos), e seu paradeiro nunca foi confirmado oficialmente. Sites como o Complex e o Pitchfork, além de revistas como a “New Yorker”, procuraram saber do garoto, mas até mesmo uma suposta entrevista de Earl por e-mail permanece inconclusiva.

Uma pena, porque, enquanto fãs do Odd Future saem gritando “Free Earl” por aí, ele poderia estar desfrutando o sucesso que seus companheiros agora têm. Por exemplo, o cantor de R&B Frank Ocean já foi escalado para participar do novo álbum de Beyoncée e até mesmo escreveu algumas músicas para Justin Bieber. O prestígio vai além: em abril, o grupo assinou um contrato com a Sony Records para lançar seu próprio selo, com autonomia total de conteúdo e direção artística.

Atualmente, a única coisa que tem chateado Tyler é a recusa da MTV em veicular seu novo vídeo, ‘She’. Os motivos são meio mal explicados (levando em conta que o clipe é bem menos ofensivo do que ‘Yonkers’), e ele se ressente porque sonha em ganhar um VMA como diretor. Mas apesar dos acidentes de percurso, das controvérsias e da marra de moleque, o futuro parece doce para Tyler e sua gangue de lobos.

Tyler, o Polêmico

Apesar de jurar que não fala sério quando zoa gays, as letras pesadas de Tyler caíram bem mal para algumas pessoas. Assim, muita gente acabou fazendo críticas negativas, e o rapper comprou a briga. Abaixo, algumas das polêmicas nas quais ele se envolveu.

Chris Brown
Com o ex de Rihanna, a treta começou quando ele criticou no Twitter artistas que fazem música “demoníaca” e “negativa”. Tyler vestiu a carapuça e zoou de volta, com ironias e trocadilhos em relação ao episódio em que Brown bateu na ex-namorada. Ele retrucou dizendo: “Nunca mencionei o
@fucktyler ou qualquer um desses caras”. No final ficou tudo bem.

Tegan and Sara
Sara Quin, uma das metades do duo folk Tegan and Sara, irmãs gêmeas e ambas lésbicas, soltou no website da dupla uma carta aberta detonando o líder do Odd Future. “Enquanto um artista que não consegue montar nem um fragmento de sentença sem usar insultos homofóbicos é celebrado na capa de toda revista, blog e jornal, eu estou desapontada com o fato de que qualquer ser humano que respeita a si mesmo possa apoiar uma mensagem tão vil”, diz um dos trechos. Tyler foi taxativo na resposta: “Se Tegan and Sara precisarem de um pau duro, falem comigo.”

Kathleen Hanna
A vocalista das bandas Bikini Kill e Le Tigre foi por outro caminho. Perguntada sobre o que achava das bravatas de Wolf Haley, ela disse ignorar sua música. “Apenas não fale sobre eles e eles irão embora”, disse ao site Spinner.com. Talvez esse seja o jeito de domar o menino, que dessa vez deixou para lá e não falou nada.

Publicado na Mixmag Brazil #10

TAGS: MIXMAG BRAZIL / ODD FUTURE / TYLER THE CREATOR

Comment

Recommendations

Name of Gallery Here

3/0 Hello everyone, this is a caption for the image you see above.