Histórias

A ERA DO REMIX

21 September 2011
A ERA DO REMIX

Muitos saúdam o movimento punk como um dos movimentos culturais mais importantes do final do século passado. Afinal, ele espatifou a pompa do rock pós-Beatles, levando-o de volta às raízes do gênero.

Se o trio guitarra-baixo-bateria começara como uma explosão de energia juvenil canalizada contra o estabelecimento de uma indústria de entretenimento adulta, polida e recatada após a Segunda Guerra Mundial, em sua segunda década de vida o rock já dava sinais de repetir o mesmo erro daqueles que havia destronado.

Depois de ganhar importância graças à função de brecha para transformações comportamentais que mudaram completamente a sociedade moderna, o rock começava a pentear seus cabelos compridos e a esticar solos de guitarra e a duração das músicas, aspirando a uma seriedade de araque que transformava a diversão pura e simples de seus primeiros dias em uma versão lenta e longa, pouco ousada e quase formulaica dos acordes rudes dos anos 50.

O virtuosismo das bandas progressivas, a ascensão de um rock ao mesmo tempo amaciado e adulto às rádios e lojas de disco transformou radicalmente a paisagem da contracultura da década anterior. Os hippies eram promovidos ao novo establishment, e em vez de tentar transformá-lo, criaram apenas um futuro confortável para eles mesmos.

Até que veio o punk e, tal como o baixista Paul Simonon na capa do novo clássico London Calling, do grupo Clash, destroçou seus instrumentos sobre as paradas de sucesso, os jornais e o público. Cultivado em Nova Iorque sobre as cinzas ainda quentes do Velvet Underground e dos Stooges, esse resgate às origens do rock começou em um bar de motoqueiros no Lower East Side que abriu espaço para bandas novas e sem palco, como Ramones, Television, Blondie, Devo, Talking Heads e Richard Hell & The Voivods.

Ali, longe da imprensa e do público, essas bandas puderam devolver o ímpeto original do rock ao gênero, tornando-o tão juvenil e inconsequente quanto nos anos 50. No meio do público estava o empresário Malcolm McLaren, que na época tentava, sem sucesso, transformar o ar andrógino e glam dos New York Dolls em uma versão comunista (?!) da banda.

Mas ao observar aquela cena descabelada, boca suja, maltrapilha e barulhenta com olhos ingleses, McLaren viu o futuro do rock. Voltou para Londres e transformou um resumo daquela cena em uma fórmula e, ao lado de sua esposa na época, Vivienne Westwood, inventou o punk rock. Só faltava a banda – escolheu os Sex Pistols do jeito mais displicente possível e deu-lhes carta branca para fazer o que qualquer adolescente inconsequente deseja fazer: destruir.

O estrago que os Sex Pistols fizeram, primeiro na Inglaterra, depois nos EUA e finalmente no mundo, pode ser visto como uma beatlemania ao contrário, que em vez de injetar felicidade e excitação em um mundo recém-conectado pela televisão, incitou o caos e a destruição no fim de uma década de desolação, egoísmo e frustração.

O punk se infiltrou como um vírus em quase todos os pilares da sociedade, e tal qual o movimento hippie dez anos antes, mudou completamente a paisagem cultural mais uma vez. Se John Lennon começou os anos 70 falando que o sonho havia acabado, o final da década, com o punk, não só concordava em uníssono como anunciava que o estado desperto era pior que um pesadelo.

Mas não muito longe dali, outro sentimento tomava conta do ambiente – e era entendido de forma completamente diferente. Surgida em festas em clubs de uma Manhattan bem diferente da dos punks, da mesma forma que estes, uma outra geração também não se identificava com o rock que tocava nas rádios, mas sua diversão estava longe da destruição e do ódio que pariram o punk. Gays e latinos se reuniam para dançar músicas que, de repente, pararam de tocar no rádio. E, como os punks, aos poucos foram tornando-se uma subcultura, com seus próprios clubs e celebridades. E, diferente dos punks, o principal agente musical não era a banda de rock, e sim o DJ.

Alçado para além do papel de autor da trilha sonora de uma noite, o DJ começou a destoar da multidão à medida que percebia que, ao escolher a música correta, podia virar do avesso todas as expectativas do público. Como um intérprete no palco, ele dava toda a ambiência necessária para uma noite ser boa ou não. E foi nessa cena nova-iorquina que o DJ começou a ganhar um destaque inédito na história.

Aos poucos, ela foi deixando de ser restrita ao gueto gay e ganhou moral entre os colunáveis de Nova Iorque. A noite nova-iorquina – e do mundo – começava a mudar drasticamente.

Além da presença do DJ, havia muitas outras novidades. A casa noturna aos poucos passava a se tornar iluminada, ao contrário dos escuros shows de rock ou da meia-luz dos rendez-vous mais adultos.

O público começava a dançar separado e você não precisava mais ter um parceiro para sair para dançar. Os sistemas de som foram tomando conta das casas, que passaram a ganhar novos nomes. Não eram mais boates ou casas de show – eram as discotecas (do francês “discothéque”). E a música que saía dessas casas bebia tanto no rock quanto no funk, na soul music, no rock africano dos anos 70 e na música latina de duas décadas. E aos poucos foi sendo referida como disco music.

O impacto da disco music na cultura atual é maior do que o do punk em seu tempo. Ao contrário do punk, a disco teve tempo para ser digerida e degustada para, depois, ganhar seu momento de popularidade. E ele veio de uma vez só – ao mesmo tempo em que uma reportagem do irlandês Nik Cohn para a revista New York tornava-se a base para um filme chamado Os Embalos de Sábado à Noite, nomes estabelecidos da música da época – e tão diferentes quanto Rolling Stones, Dolly Parton, Abba, Kiss e Rod Stewart – começaram a compor faixas que ecoavam o mesmo groove marcado que saía das discotecas.

O sucesso fez com que surgissem artistas dispostos a comer uma fatia considerável desse novo mercado – e bandas eram fabricadas no estúdio para aproveitar o hype do momento. É aí que surgem nomes que depois ficaram associados à disco music, como Village People e KC & The Sunshine Band, e bandas reinventadas para o gênero, como Bee Gees e Kool & The Gang.

A indústria fonográfica transforma a disco music no maior acontecimento musical do fim dos anos 70 de forma tão agressiva que gera uma reação contrária pesada o suficiente para que o gênero até hoje seja visto de forma pejorativa. A indústria fonográfica e as rádios, com medo do contra-ataque, simplesmente largaram a disco music para trás.

E novos fãs que haviam descoberto um novo mundo para dançar com aqueles discos simplesmente foram deixados sem ter o que ouvir, restando a eles repetir as lições aprendidas com a disco music, e começaram eles mesmos a serem os DJs de suas cidades.

Foi dos escombros da disco music que nasceram a house music, em Chicago; o techno em Detroit; o jungle, em Londres; o hip hop em Nova Iorque, o electrofunk em Los Angeles; o funk carioca, no Rio de Janeiro; e o miami bass em Miami.

Dos destroços da disco nasceu praticamente tudo que a gente chama de música eletrônica, dance music ou rap – que é, sem exagero, metade da paisagem musical atual.

E no centro da disco music estava o DJ, elevando o conceito do faça-você-mesmo que o punk tanto pregava às últimas consequências. Afinal, você não precisava ter uma banda para ser um DJ. Não precisava saber tocar um instrumento. Era só você e o seu bom gosto. E durante os anos 70, os primeiros DJs inventaram técnicas de execução de música ao vivo que elevaram sua função de meros tocadores de discos para interventores musicais. Aos poucos eles foram interferindo nas canções originais, atuando individualmente em uma área experimentada pelo rock dos anos 60 e pela música jamaicana do início dos anos 70.

Voltando uma década no tempo, encontramos os Beatles fartos de tocar shows por não conseguir sequer ouvir os próprios instrumentos devido aos gritos das fãs. Fora todo o estresse que era qualquer aparição em grupo dos quatro, a banda ainda estava começando a ousar nas composições e arranjos, o que tornava cada vez mais complicado a realização dos shows.

Num movimento ousado e inusitado, a banda anunciou em 1966 que não faria mais shows ao vivo e se dedicaria à gravação de álbuns, o que foi considerado suicídio comercial na época. Mas os Beatles estavam entrando na fase mais importante de sua carreira, quando começaram a trabalhar a música no estúdio depois de gravada.

A música pop pode ser dividida entre antes e depois dos Beatles basicamente por isso – se antes o músico precisava mostrar seu trabalho ao vivo para ser reconhecido, depois deles a gravação tornou-se mais importante que a performance, e o produtor (no caso, George Martin) começa a se tornar mais autoral no processo de gravação.

Anos depois, na ilha caribenha da Jamaica, o produtor subia mais um degrau na importância artística – desta vez, num misto de necessidade e ganância. A música pop da ilha, que ainda não havia parido o reggae e orbitava entre os gêneros do ska e do rock steady, não era gerida por escritórios engravatados, mas por verdadeiros gangsters musicais.

Donos dos primeiros soundsystems (trios elétricos em caminhonetes que funcionavam como casas noturnas ambulantes, andando pela Jamaica para mostrar novos hits e artistas), os produtores musicais jamaicanos pensavam em maneiras de esticar o sucesso de um hit. Até que um assistente de produção desses caras chamado King Tubby inventou uma forma de fazer uma música ter seu prazo de validade estendido.

Com acesso às gravações originais, Tubby deixava apenas baixo e bateria da música original e primeiro trocava o vocal e os efeitos sonoros, criando uma nova música a partir de uma que já existia. Era o dub, que foi apropriado por Lee “Scratch” Perry e tornou-se a plataforma de lançamento para o DJ moderno.

As notícias de Londres e Kingston não demoraram a chegar a Nova Iorque, e logo o DJ transformava-se num produtor de todas as músicas do mundo. A pós-produção dos Beatles e o dub de King Tubby deixavam de ser uma etapa anterior à audição e eram realizadas na frente do público, muitas vezes de improviso. Assim surgiu o remix, em que o artista mexe numa obra já conhecida, acrescentando elementos alheios ou seus à mistura.

Mesmo tendo começado apenas na música, o remix logo foi sendo disseminado para todas as outras formas de cultura e atingiu sua maioridade com a cultura digital. Depois da internet e do computador, a figura do DJ – o maestro da sincronicidade – foi transferida para qualquer um que tenha acesso às ferramentas digitais. Mais do que isso: tornou-se regra no imaginário atual, em que músicas chocam-se com filmes, trechos de livros aparecem em comerciais e games contam histórias. À medida em que nossa cultura torna-se cada vez mais autorreferente e complexa, o remix surge como o sangue desse novo corpo cultural, permitindo que novos autores surjam a partir do trabalho de autores originais.

E vale tudo: desde criar um disco juntando Beatles com Jay Z, a fazer a caloura Susan Boyle cantar ao som da batida do funk carioca, passando por recriar cenas de filmes clássicos em cenários de videogames ou apenas acrescentar um beat acelerado numa música antiga. O conceito de remix vai para além do mero consumo e instiga a participação do espectador – que cada vez mais embarca nesse convite.

A Wikipedia, o maior veículo de conteúdo enciclopédico do mundo, pode ser vista como um longo remix de conhecimento, uma vez que, quando todos podem escrever, ninguém é autor de nada. Começando no século passado como uma forma de interferir num trabalho já existente, o remix pode dar o tom do século atual e, quem sabe, mudar nosso futuro conceito de autoria.

Nas imagens: capa do disco London Calling, do The Clash; Bee Gees, um produto da era disco; ABBA estourou com os grooves marcados da dance music; King Tubby é o criador do dub; e Blondie recuperou a inconsequência do rock dos anos 50

Publicado na Mixmag Brazil #06

TAGS: DJ / MIXMAG BRAZIL / REMIX / REMIXES

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