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DO GUETTO AO MUNDO DOS BACANAS By CONTEÚDO MIXMAG BRASIL

06 January 2012
DO GUETTO AO MUNDO DOS BACANAS

Texto: Pedro Gesualdi
Fotos: Divulgação

Mandamos nosso repórter classe C até um dos clubs mais chiques de São Paulo para entender o sucesso de baladas de black music na classe A.

Meia-noite e pouco de terça para quarta. Estou na frente do club Royal ainda decidindo se vou mesmo fazer isso. Entenda: apesar de escrever para Mixmag, digamos que sou mais um entusiasta da teoria do que da prática. Trocando em miúdos, a ideia de trombar com algum pitboy aditivado me aterroriza.

Na noite em questão, no entanto, está tocando o DJ Puff, famoso por seus sets de hip-hop e black music, e disso eu gosto. Resolvo entrar (até porque se desse um migué nessa noite, o chefe mandava um ninja assassino até minha pacata residência). Na porta, aqueles que há alguns anos chamaríamos de Mauricinhos e Patricinhas, sabe? Estereótipo? É, eu sei. Suspiro. Vamos lá.

A Royal é uma casa pequena e aconchegante. No momento em que cheguei, ainda estava transitável, e qualquer um podia chegar ao guarda-volumes (“uma cortesia da casa”, me informou o funcionário) e ao banheiro. As paredes são forradas com logos de gorós sofisticados. No sistema de som, rap nacional. Uau! Há alguns anos você seria chamado de louco se afirmasse que em um futuro próximo esses beats estariam embalando uma balada classe AAA de terça à noite. Mas as coisas mudaram. “A black music ficou mais eletrônica, mais sexy, e o resultado disso é a aceitação popular. Ela deixou de ser exclusividade dos guetos para virar luxo”, DJ Puff me explicou depois.

DJ Puff 1

DJ Puff

Puff é um daqueles caras que tomou os mesmos rumos da própria black music. O paulistano Rogério Cássio Rosa, começou cedo, aos 12, nas festas de garagem, quermesses do bairro e aniversários. Seu pai foi DJ nos anos 60 e 70, e foi com ele que Puff aprendeu o que sabe. “Ele foi o principal [na formação de Puff como DJ], porque meu estilo de discotecar é para proporcionar diversão e entretenimento.”

A fama veio no começo da década passada, quando Rogério foi residente no extinto Bar’N’Soul e no club Heaven. Sem deixar de seguir por esse caminho, hoje em dia é ele quem comanda as noites do estilo em baladas como Pacha (SP), Café de la Musique (SC) e Boate Soul (CE). Além disso, ele é dono do Up Club SP, na Vila Madalena, em São Paulo. No local, Puff envereda por caminhos mais roots. “Lá eu toco um som mais R&B, porque o público frequentador conhece o estilo mais a fundo.”

Essa diversidade garante ao DJ espaço em clubs de todo tipo. “Em alguns clubs a black music que eu toco é mais conceitual, mais raiz, e em outros o som é mais pop. Muitos lugares passaram a tocar black music recentemente, e precisamos começar com um som mais leve para que ele se torne aceitável”, conta ele, que logo depois emenda que gosta de tocar em todos os lugares em que tem residência.

Calmo atrás das pick-ups, Puff começa a mudar o estilo da discotecagem no Royal conforme a noite avança. Os gringos de sonoridade mais pop vão tomando conta enquanto o lugar começa a encher. Hora de fumar um cigarro.

Lá fora, conheço o mendigo Andrezinho. Se você está supondo que o nome possa vir de uma semelhança com o vocalista do Molejão, acertou. Figura ímpar, ele deixa claro que está ali, do lado de fora da baia dos fumantes, mais para trocar ideia do que para pedir dinheiro. Ele está dividindo sua atenção e sabedoria entre eu e um grupo de meninas quando chega um “pitbull”, daqueles que gostam de botar moral em morador de rua, que quer ensinar o cara o valor do trabalho, como se fosse um messias vindo diretamente do Mundo dos Bacanas. 

Raízes

Volto para dentro do club para encontrar Puff falando ao microfone por cima das canções, quase como um autêntico MC das antigas. “Nos anos 90 eu curtia os bailes de uma famosa equipe chamada Chic Show. O DJ mais top era o Grand Master Duda, e ele era um lorde ao microfone. Recebia as pessoas, falava a agenda de bailes, na hora das lentas tinham os recadinhos... Foi nele que eu me inspirei”, revela. “Depois fui entender a cultura dos MCs gringos.”

O hip-hop chegou ao Brasil relativamente cedo, ainda nos anos 80, quando alguns garotos se reuniam em frente ao metrô São Bento, no centro de São Paulo, para dançar break e arriscar alguns versos. Nos subúrbios, o movimento foi ganhando força, mas ainda sem quebrar as barreiras do gueto. Surgiram grupos e artistas importantes nos anos 90 que ajudaram a popularizar o estilo, como Racionais MCs, Thaíde, Rappin Hood e Pavilhão 9. Influenciados por precursores do rap como Public Enemy e Run DMC, suas letras falavam da dura realidade das periferias. 

Ironicamente, foi com os cariocas do Planet Hemp que o hip-hop brasileiro teve sua primeira mostra de que podia ser forte. Com um som que misturava os versos e os scratches a ritmos mais populares na época (fim dos 90), como o rock, e letras que falavam basicamente de maconha, a banda ganhou fama e revelou três dos MCs mais famosos do país até hoje: Marcelo D2, BNegão e Black Alien. Conforme o rap e o R&B foram se tornando os principais estilos musicais da música pop americana, acabaram também caindo no gosto do brasileiro. Isso significou o domínio do rap gringo por muito tempo durante a década passada.

Nos últimos anos, no entanto, começou a brilhar a estrela do hip-hop nacional. Na já lendária Rinha dos MCs, evento onde rappers iniciantes podem mostrar seu talento, surgiram nomes como Emicida, Kamau e Criolo Doido. Por meio desses e de muitos outros MCs, o rap nacional se vê em seu melhor momento, seja nos guetos, na MTV ou nas baladas mais requintadas.

DJ Flash

Black house

Flash, outro DJ famoso de black music, entende que atualmente acontece uma mutação no estilo. “Hoje em dia os cantores de black music estão se juntando aos produtores de house. Podemos dizer que a black music se tornou uma black house.”

Na verdade, Flash é Leandro Batista Ramos e há dez anos trabalha como DJ. Parceiro de Puff, Zezão e até mesmo do lendário DJ Hum, ele hoje se apresenta, como residente, em baladas de rico, como Mokai, em SP, e Royal Goiânia, confirmando a tendência de a black music tomar o mundo AAA. Já teve também programas nas rádios Energia 97 FM e Metropolitana.

Curiosamente, Leandro é também técnico em informática e revela que pretende se dedicar mais a essa profissão, apesar do sucesso que tem feito como DJ. Mas ele não deixa o hip-hop de lado. “Quero continuar contribuindo para a nossa boa black music de alguma forma.”

A julgar pela lotação da Royal na hora em que resolvi puxar o carro, a black music não deverá ter muitos problemas para continuar firme em um futuro próximo. Que bom! (Chato mesmo foi perceber, talvez tarde demais, que no club duas Stellas saem por R$ 28,60. Mas a gente releva.)

Para bombar na festinha

A Mixmag pediu para os DJs Flash e Puff uma playlist exclusiva com dez músicas. Dê uma olhada e inspire-se para a próxima festinha que você for dar em seu apartamento.

Black Music charts

Publicado na Mixmag Brasil # 11

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TAGS: BLACK MUSIC / BRAZILIAN ARTISTS / CLUB ROYAL / DANCE MUSIC / DJ FLASH / DJ PUFF / DJS / MIXMAG BRAZIL / SAO PAULO

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