DJ brasileiro Paulo Boghosian fala sobre o conflito comercial x underground
A música eletrônica passou por um período de muita mudança nos últimos três anos. Se por um lado os “big names” do house comercial democratizaram as pistas, trazendo novos públicos para os clubs, por outro esses artistas fizeram isso aproximando as batidas eletrônicas da pop music, e assim a música eletrônica de vanguarda e a cultura clubber ficaram em segundo plano. Isso gerou muita discussão. De um lado, os amantes de música eletrônica indignados com o esquecimento da cultura clubber e o aparecimento de uma nova geração, mais preocupada com a imagem, o status e outros assuntos que não o amor pela música. De outro lado, os novos participantes do mercado se recusando a aceitar um tipo de música que parecia linear, minimalista e desfavorável ao consumo de bebidas.
Mas quem está na cena há bastante tempo sabe que os movimentos dentro da música eletrônica são cíclicos, e atualmente a cena mundial está caminhando de volta às origens, de volta à música inteligente, aos arranjos e às melodias menos óbvias e mais profundas e ao culto à música. Em Ibiza, a noite que mais lota na Pacha, ao lado da festa Fuck Me I’m Famous, do David Guetta, é a noite Vagabundos, do Luciano, ex DJ do Circoloco (famoso after hours underground de Ibiza). A noite mais cheia do Amnesia é a Cocoon, do lendário ícone da cena Techno alemã, Sven Vath. Barcelona, Londres, Berlin, Frankfurt, Paris, entre outras capitais mundiais, também estão tomadas pela música eletrônica inteligente. No Brasil a cena está, aos poucos, caminhando no mesmo sentido. Os tradicionais clubs de música eletrônica D-Edge e Warung estão mais fortes do que nunca, e surgem diversos novos clubs e núcleos de festas em diferentes cidades voltados para a música eletrônica inteligente, como o Amazon, em Chapecó; o Place Lounge, em Cocal do Sul; o Beehive e o In House, em Passo Fundo; o Neoe Move, em Campo Grande; entre outros que estão em plena ascensão.
Mas o que está acontecendo, e por quê? A música eletrônica inteligente se tornou mais acessível? O pop house cansou? O público mudou? Na verdade, sempre que há mudanças drásticas de paradigmas, estas são causadas por uma série de fatores, e não por um só.
Sim, a música eletrônica inteligente se tornou mais acessível, mais alegre, mais swingada, e o minimalismo de alguns anos passados ficou para trás. Aquelas músicas que eram apenas uma bateria estranha, que não mudavam e não “pegavam pressão”, foram substituídas por grooves para cima, com vocais muitas vezes sexy ou referências à old school.
Se por um lado a música eletrônica se tornou mais acessível, por outro o público também mudou. Não digo que mudaram as pessoas na noite, pois três anos é um tempo muito curto para mudar o público que frequenta os clubs. Mas com o tempo e o costume de ouvir música eletrônica, as pessoas começaram a refinar seus gostos e a buscar novos sons. Esse é um processo natural. Muitos começam escutando sons mais fáceis e logo são atraídos pelos sons mais inteligentes.
Muita gente se cansou não apenas da música comercial, mas também do comportamento das pessoas que frequentam essas baladas, e passaram a buscar algo mais. Isso ocorre porque nas festas focadas nesse som mais comercial, muitas vezes os DJs só estão preocupados em tocar um hit atrás do outro. Assim, coisas como construção de set, mixagens e vários outros recursos que os DJs possuem são esquecidos. Quando isso ocorre, o DJ passa a ser quase um animador de festas, como naquelas de quinze anos, ao invés de apresentar algum tipo de conteúdo artístico que desperte o interesse do público. Afinal, todo esse culto ao DJ começou quando o público percebeu que os DJs são artistas, têm identidade músical, técnica e habilidade.
Todo o movimento e a história da música eletrônica esteviveram baseados na música, na “viagem” que ela provoca nos seres humanos e na união entre pessoas de diferentes culturas e classes sociais. Desde as festas disco, que tinham o princípio de ser “uma festa onde DJs tocavam longas músicas que mantinham as pessoas dançando a noite toda”, até as raves, e passando pelos primeiros night clubs, o foco sempre foi a música. A cultura clubber sempre foi de unir pessoas e tribos sob o mesmo teto dançando a mesma música. Sob esse aspecto, a volta da cultura clubber e a apreciação da música eletrônica inteligente refletem também uma mudança de valores na sociedade, de pessoas se preocupando menos em aparecer e mais em se divertir umas com as outras, sem julgamentos.
No final das contas, ciclos vêm e vão, e a música eletrônica continua evoluindo e sempre crescendo. Nunca antes houve tanto espaço para a música eletrônica e tantos eventos nesse segmento. A verdade é que existe espaço para todos na cena. O preconceito não leva a nada, e a discussão entre underground e comercial também é muito subjetiva. Desde que façam um trabalho sério e honesto, os DJs que fazem música mais comercial merecem o seu respeito. As produções e o trabalho de marketing desses DJs de música comercial são importantes, sim, para trazer pessoas novas para as pistas, e eles vão sempre ter seu público, talvez maior até que os outros DJs, porque seus sons são voltados para a massa. Mas é muito bacana para os que respiram música poder ver as pessoas voltando a dar valor à música inteligente, ao talento, aos que pesquisam, criam, que produzem suas próprias músicas com o intuito não de vender, mas de expressar um sentimento, aos artistas da música eletrônica. Afinal, música é arte.
Seja bem-vindo ao renascimento da cultura da música eletrônica!
Publicado na Mixmag Brasil #11